Segregação socioespacial e seu reflexo na desigualdade social

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Desde a abolição da escravatura, em 1888, a segregação socioespacial começou a aparecer no Brasil. Especialmente no século XX, a industrialização gerou intensas modificações nos centros urbanos brasileiros e uma série de problemas foram gerados em decorrência dessa situação.

De um lado, o aumento da riqueza. De outro, o crescimento das necessidades, inclusive básicas, e da negligência do acesso aos direitos fundamentais. Na prática, a segregação é derivada da desigualdade social. Afinal, enquanto uns moram em apartamentos luxuosos, outros vivem em condições de vulnerabilidade, com pouca ou nenhuma dignidade.

É o que retrata a famosa foto de Tuca Vieira, que mostra a comunidade de Paraisópolis ao lado de um edifício de luxo no Morumbi. Apesar de ser apenas um exemplo, demonstra o que acontece em todo o Brasil em diferentes cidades e estados.

O que fazer para mudar essa situação? A resposta passa por entender a segregação socioespacial e conhecer as soluções possíveis. Neste post, vamos discuti-las. Continue lendo!

O que é segregação socioespacial?

Segregação socioespacial é o processo de divisão de uma região conforme a classe social. Isso gera uma grande diferença no acesso aos serviços públicos e às construções habitacionais, afetando a dignidade das pessoas. No Brasil, essa situação é muito presente devido ao crescimento urbano desordenado e acelerado.

De modo geral, a segregação leva à marginalização de indivíduos e grupos sociais, fracionando o espaço de um município em diferentes partes. Cada uma delas tem suas especificidades, umas são valorizadas, enquanto outras sofrem com a ausência de acesso aos direitos fundamentais.

Todos esses aspectos fazem com que haja uma precarização maior nas cidades. Nesse cenário de desigualdade, é evidente que os moradores de ambos os lados têm condições de vida diferentes. Isso se refere à educação, acesso à rede de esgoto, água e iluminação pública, transporte público, coleta de lixo e mais.

Essa situação também impacta o valor dos imóveis. As regiões com mais infraestrutura tendem a ter um preço mais elevado, enquanto o processo inverso ocorre em bairros mais pobres.

Com isso, quem tem uma renda mais baixa é levada a morar nessas regiões, muitas vezes distante do centro. Essa situação ainda causa impactos negativos na conquista de emprego, melhoria das condições de vida e até acesso a um estudo melhor.

Vale a pena ressaltar que a segregação socioespacial é um dos principais problemas sociais urbanos. A situação ainda começa na abolição da escravatura, quando os negros começaram a ocupar os morros por serem libertos sem aplicação de nenhum projeto social e/ou de inclusão. Portanto, não tinham para aonde ir.

Já na Revolução Industrial, especialmente na metade do século XX no Brasil, o movimento migratório da área rural para a urbana se intensificou. As pessoas também saíram dos pequenos municípios com a promessa de “tentarem a vida”. O resultado foi um colapso na infraestrutura das cidades, o que aumentou a desigualdade social.

Quais os tipos de segregação socioespacial?

Os tipos de segregação socioespacial são voluntária e involuntária. Portanto, a pessoa pode estar nessa condição por vontade própria ou devido às circunstâncias vivenciadas. Isso também influencia o resultado desse movimento, que pode ser melhor ou pior devido à existência, ou falta de moradia digna e acesso aos serviços básicos.

Tipos de segregação socioespacial: involuntária

A segregação socioespacial involuntária se caracteriza por acontecer de forma não planejada. Isso significa que ela é derivada das condições econômicas e sociais e costuma destacar a desigualdade social existente nas cidades.

Esse é o caso de Paraisópolis e Morumbi. Na comunidade, 75% das residências não têm rede de esgoto e 60% contam com energia elétrica devido a ligações irregulares. Além disso, somente metade das ruas é asfaltada.

Enquanto isso, o Morumbi tem condomínios de luxo, asfalto e calçamento em todas as vias, e acesso a serviços públicos. A diferença na quantidade de habitantes por hectare também é grande: 1.000 em Paraisópolis, 30 no bairro valorizado da capital paulista.

Outro exemplo é a divergência na expectativa de vida em Curitiba, capital do Paraná. O bairro com melhor Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) é o Água Verde. O resultado é de 0,956, com uma expectativa de vida de 81 anos.

Já em regiões periféricas — como as dos bairros Tatuquara, Cachoeira, Boqueirão, Umbará e Ganchinho —, o IDHM é de 0,623. Enquanto isso, a expectativa de vida cai para 69 anos.

Ou seja, na segregação involuntária, a pessoa é levada a viver em um contexto difícil por falta de opção. Isso impacta toda a sua qualidade de vida e acesso aos direitos fundamentais.

Tipos de segregação socioespacial: voluntária

A segregação socioespacial voluntária ocorre por uma vontade do indivíduo. Ele opta pela autossegregação, ou seja, sair da região em que está para ter mais qualidade de vida, normalmente.

Ou seja, esse grupo de pessoas costuma ter alta renda e escolhe sair de uma cidade cheia para viver em áreas mais tranquilas. Esses locais podem ser isolados ou estarem apenas afastados dos grandes centros urbanos. Além disso, a moradia costuma ser um condomínio residencial de luxo.

Quais fatores provocam a segregação socioespacial?

Os fatores que provocam a segregação socioespacial são a desigualdade nos avanços sociais e políticos, os aspectos econômicos, históricos, sociais e raciais. Assim, o crescimento desordenado das cidades aumenta o problema, fazendo com que a população de renda mais baixa se desloque para regiões com menos condições e infraestrutura.

Isso leva ao processo de favelização, isto é, de criação de comunidades em situações desfavoráveis, com moradias inadequadas, que tendem a estar em áreas de risco. Sem acesso aos direitos básicos, crianças e adolescentes crescem com poucas oportunidades de desenvolvimento, prejudicando o seu futuro.

Essa situação também gera outros problemas, como dificuldades na conquista de emprego e aumento da violência. Afinal, a distância do centro faz com que os empregadores evitem contratar essas pessoas, inclusive pela dificuldade de acesso ao transporte público. Então, o receio é de que o funcionário se atrase com frequência.

Isso e a falta de estudo tornam o caminho da violência mais atrativo. Afinal, a falta de oportunidades faz com que as pessoas sejam levadas a essa escolha.

Como o fenômeno da segregação socioespacial ocorre no Brasil?

O fenômeno da segregação aeroespacial ocorre no Brasil devido à desigualdade social e à diferença de ocupação nas áreas urbanas. Esse cenário se reflete na dificuldade de acesso a políticas e serviços públicos, gerando um abismo crescente entre quem tem mais oportunidades e quem nem sempre consegue chegar onde poderia por falta de condições.

Na prática, a pessoa tem bom nível educacional, mora em uma área mais estratégica, fala outros idiomas, etc.

Já do outro lado, crianças e adolescentes precisam compartilhar o quarto com os pais e/ou os irmãos. Sem silêncio em casa, apresentam dificuldades cognitivas, que se refletem no desempenho escolar. Isso impacta todo o futuro e mostra que o mérito nem sempre é a melhor moeda de análise.

Todo esse cenário pode ser verificado em estudos científicos. Uma pesquisa realizada pelos economistas Izabel dos Santos e Gervásio Ferreira, do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), comprova as informações.

Segundo o levantamento, 26% da população que mora nas grandes cidades brasileiras precisaria ser realocada para que houvesse integração social. Ou seja, esse percentual de pessoas deveria ser distribuída espacialmente de forma mais igualitária.

A análise também identificou que a segregação socioespacial limita o acesso aos serviços e recursos, inclusive educação e saúde. Sem contar que também reduz os ganhos derivados das interações sociais no espaço urbano.

No entanto, esse cenário é mais agravado em algumas regiões brasileiras. A pesquisa também identificou que norte e nordeste são as mais segregadas e desiguais, enquanto sul e sudeste são as que menos se encaixam nesse conceito.

Também foi verificado que cidades com uma população maior apresentam mais segregação e aumento nas taxas de homicídio. Portanto, a conclusão é que o contexto atual impacta toda a sociedade.

Afinal, quem tem menos condições de renda acaba sendo limitado pela falta de oportunidades. Por sua vez, quem tem uma remuneração mais alta sofre os efeitos da violência. Portanto, a erradicação da pobreza seria interessante para todos.

Quais são os efeitos da segregação socioespacial?

Os efeitos da segregação socioespacial são divisão de classes sociais, marginalização dos mais pobres, existência de crianças em situação de rua, ausência de serviços públicos básicos e riscos/problemas ambientais. Ou seja, esse cenário e a desigualdade social geram um efeito dominó que impacta toda a sociedade e causa problemas significativos.

Os governos não conseguem acompanhar essa evolução para implementarem políticas públicas eficazes. Dessa forma, o acesso aos serviços se dificulta e as populações mais vulneráveis acabam tendo cada vez menos oportunidades.

A segregação socioespacial faz a divisão de classes sociais

A segregação socioespacial dividiu a população em classes sociais, uma parte vive em espaços com infraestrutura, enquanto outra mora em áreas com falta de infraestrutura. A falta de oportunidades criou setores de pessoas com pouca qualificação profissional e baixa escolaridade, que trabalham no setor informal ou estão em situação de desemprego.

Há marginalização dos mais pobres

Essa situação também fez com que os conflitos sociais ficassem mais presentes e se tornem um problema social. As pessoas mais vulneráveis foram marginalizadas, vivendo longe dos centros urbanos.

Nessas regiões afastadas, estão mais sujeitas a doenças e problemas devido à falta de saneamento básico, acesso à saúde e educação de qualidade, transporte público eficiente e mais. Assim, o processo de exclusão social, política, cultural e econômica é mais evidente.

Existem várias crianças em situação de rua

A vulnerabilidade econômica é um fator que leva as crianças a estarem em situação de rua, mas outros aspectos também interferem nesse cenário. O principal critério é o envolvimento dos familiares, isto é, a sua formação mais frágil, a exploração da criança e do adolescente e a renda da família.

Com isso, muitas crianças relatam terem sido vítimas de violência doméstica, inclusive abuso sexual e físico. Elas também afirmam que a exploração econômica foi um motivo para saírem de casa, conforme estudo do Ipea.

Os serviços públicos básicos estão ausentes

Enquanto nos bairros mais valorizados há toda a oferta de serviços públicos, naqueles mais afastados ou em condição de vulnerabilidade existe ausência. Nem sempre estão disponíveis escolas (especialmente, de qualidade), Unidades Básicas de Saúde (UBS), hospitais, transporte público, etc.

Além disso, as regiões nobres contam com parques, praças e diferentes aparatos de infraestrutura e lazer. Isso não costuma acontecer em áreas mais pobres, nas quais as crianças nem sempre têm um local para brincar e os adultos podem não contar com acesso a comércio variado.

Os riscos e problemas ambientais são maiores

A segregação socioespacial causa problemas ambientais. A degradação é vista na falta de coleta seletiva, no lixo jogado em terrenos baldios, na ausência de saneamento básico, etc. Tudo isso leva à proliferação de doenças, como viroses, dengue, doença de Chagas, leptospirose e outras.

Como resolver o problema da segregação socioespacial?

Para resolver o problema da segregação socioespacial, é preciso que a sociedade civil se organize e exija o cumprimento de seus direitos. Isso significa que governo, organizações e pessoas precisam trabalhar juntas para revisitar a oferta de serviços públicos e incluir quem está excluído.

O estudo “Rumo a uma Cidade Equitativa” trouxe 7 transformações necessárias para as pessoas terem mais condições de igualdade. Elas são divididas em grupos.

O primeiro deles é reimaginar a oferta de serviços. Dentro desse conceito, é importante desenhar e implementar a infraestrutura para priorizar os vulneráveis. Também é preciso analisar os modelos de oferta de serviços, fazendo parcerias.

O segundo é incluir os excluídos. Nesse caso, é importante coletar dados para melhorar o cenário a partir da participação da comunidade. Ainda é válido reconhecer e apoiar os trabalhadores informais urbanos.

Por fim, o terceiro é viabilizar a mudança. Isso é feito por financiamentos e subsídios, com alocação dos recursos inovadores. Outra transformação é gerir o território urbano com transparência e planejamento espacial integrado. Ainda há a necessidade de criar alinhamentos e coalizões entre governança e instituições.

Dessa forma, é possível agir de forma ampla para que a segregação socioespacial perca espaço nas grandes cidades brasileiras. No entanto, cada um desses aspectos é trabalhado individualmente e as organizações da sociedade civil são fundamentais nesse cenário.

A Habitat Brasil é um dos grupos que atua em prol das famílias em situação de vulnerabilidade. Oferecemos moradias dignas a quem precisa, já beneficiamos mais de 197 mil brasileiros em 24 estados.

Também desenvolvemos e implementamos soluções de acesso a saneamento, água e higienização. Assim, garantimos saúde e qualidade de vida a todos os beneficiados dos nossos projetos, fazendo com que a sociedade seja mais igualitária e menos impactada pela segregação socioespacial.

E você, quer participar desse movimento? Faça a sua doação para a Habitat Brasil e ajude a melhorar a vida de milhares de pessoas.

 Resumindo

O que é segregação socioespacial explique?

A segregação socioespacial é a divisão das classes sociais em áreas específicas das cidades. Elas têm características diferentes, umas têm mais acesso a serviços públicos do que outras. Isso gera falta de oportunidades, já que as comunidades menos favorecidas são marcadas pela violência, insegurança, ausência de moradia digna e infraestrutura, e mais.

Quais são as principais causas da segregação socioespacial?

As principais causas da segregação socioespacial são a desigualdade nos avanços sociais e políticos e os aspectos econômicos, históricos, sociais e raciais. Assim, o crescimento desordenado das cidades aumenta o problema, fazendo com que a população de renda mais baixa se desloque para regiões com menos condições e infraestrutura.

Como ocorre o processo de segregação?

O processo de segregação ocorre de forma voluntária ou involuntária. No primeiro, a pessoa escolhe sair dos grandes centros urbanos para ter mais qualidade de vida, normalmente. Por isso, costuma viver em condomínios de luxo. Já o segundo é gerado por uma imposição devido à falta de renda. Portanto, há a obrigação de estar afastado dos grandes centros.