Os efeitos da habitação no desenvolvimento infantil

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“A conexão entre um lugar adequado para morar e uma criança saudável foi um momento de descoberta”, afirma a Dra. Megan Sandel, professora de pediatria na Faculdade de Medicina e Saúde Pública da Universidade de Boston (EUA). Ela também é especialista em habitação, saúde e desenvolvimento infantil internacionalmente reconhecida. A descoberta para ela aconteceu depois que um paciente de 2 anos de idade, que havia ficado para trás no gráfico de crescimento, de repente começou a se desenvolver. “Logo ficou claro para mim o porquê”, conta Sandel. A família da criança mudou de um apartamento superlotado e inadequado para um lugar melhor. “O remédio que essa criança precisava era uma casa estável, digna e acessível. E isso você não encontra na farmácia”. 

Você pode falar mais sobre como estabeleceu a relação entre a saúde e desenvolvimento das crianças e a moradia?

Eu sou diretora associada da Grow Clinic for Children no Centro Médico de Boston (EUA). A clínica é para crianças com “dificuldade de se desenvolver”. Em país em desenvolvimento, isso atenderia à definição de desnutrição da Organização Mundial de Saúde (OMS). Eu acompanhei uma criança muito fofa de 2 anos de idade, mas que ainda não tinha superado suas roupas de 12 meses. Ela estava severamente raquítica e não estava crescendo. Eu estava ficando maluca para tentar fazer essa criança crescer. Pedia testes muito caros, shakes nutricionais e vários remédios. Nada estava funcionando. De repente, ela começou a crescer. Sua família tinha saído de uma lista de espera de moradia social. Eles deixaram de dormir em um cômodo no apartamento superlotado de um membro da família e foram para um apartamento próprio. Essa criança agora dormia sozinha em uma cama durante a noite. Ela senta em uma mesa e não se distrai com pessoas diferentes indo e vindo. E ela passou a comer melhor. Era isso que ela precisava para crescer.

Como exatamente a habitação afeta a saúde e o desenvolvimento das crianças?

Eu tenho a tendência de me concentrar em quatro dimensões diferentes de precariedade da moradia que impactam a saúde. 1) Qualidade do lar. Tem coisas que podem tornar as crianças doentes ou coisas que podem promover a saúde? 2) Estabilidade. A família vive em um lugar próprio ou está em risco de despejo? 3) Acessibilidade. A família é capaz de sustentar sua casa sem ter que fazer outros sacrifícios como comida ou cuidados com a saúde? 4) Localização. Qual é o bairro e a comunidade onde a moradia está? Todas essas dimensões são incrivelmente importantes para a saúde das crianças.

Como assim?

Um exemplo de doença associada à qualidade da casa é a asma. A asma é uma das doenças crônicas mais comuns em crianças. Entre 10% a 12% das crianças nacionalmente têm asma. Estima-se que cerca de 40% dos casos de asma sejam atribuídos ao ambiente doméstico.  Fumaça de cigarro, fungos, pragas como ratos ou baratas, exposição a produtos químicos. Todos estes fatores foram indicados como agravantes da asma, e alguns deles realmente estão relacionados ao desenvolvimento da doença. Essas características de qualidade da moradia tornam-se super importantes para pensar em maneiras de reduzir os ataques de asma e até prevenir a doença em primeiro lugar.

Você considera a habitação um problema médico e social?

O lugar que você mora pode ser um dos principais indicadores da sua saúde. Cada vez mais, nós, da área da saúde, estamos reconhecendo que apenas 10% a 20% da saúde de nossos pacientes é prevista pelos cuidados que eles recebem em hospitais e consultórios. A maioria dos fatores que predizem a saúde está relacionada ao local onde você mora. Estamos pensando, cada vez mais, em habitação como assistência médica e como algo que precisamos investir e apoiar para melhorar a saúde de nossos pacientes.

Você comparou uma moradia adequada a uma vacina?

Temos uma rede de políticas de pesquisa no Centro Médico de Boston (EUA) em que analisamos as famílias de alto risco que atendemos. Constatamos que crianças de famílias que estavam com insegurança alimentar mas recebiam auxílio-moradia (o que fazia com que elas não precisassem pagar por aluguéis excessivos) eram duas vezes menos propensas a estar abaixo do peso do que crianças semelhantes de famílias que também estavam com insegurança alimentar e eram elegíveis para receber o auxílio-aluguel, mas não estavam recebendo.

Ter esse auxílio-aluguel, de alguma maneira, protegeu as crianças de serem afetadas biologicamente pela insegurança alimentar. Isso deu a elas certa imunidade. Por isso que eu imagino uma casa estável, adequada e acessível agindo como uma vacina. Ela oferece a você resiliência ou imunidade contra ameaças futuras.

A conexão é que as famílias que gastam muito com aluguel não podem pagar por alimentação?

Eu penso na fome e na moradia precária como sendo os gêmeos do mal para crianças de baixa renda. Muitas vezes as famílias estão tendo que escolher entre alugar e comer.

Quando você fala sobre a saúde das crianças, você inclui saúde mental?

Quando falamos de saúde, muitas vezes temos uma visão unidimensional: saúde física. Realmente, a saúde é muito sobre o aspecto mental e de outros bem-estares. Nossa pesquisa na Children’s Health Watch tem se focado muito nessa ideia. Não é apenas sobre crianças: é sobre os pais delas. Não se trata apenas de saúde física; é sobre saúde mental. Nós publicamos um artigo sobre os indicadores de saúde de crianças e sua família em relação a três diferentes formas de insegurança habitacional: falta de moradia, mudança frequente e atrasos de aluguel. O resultado mais significativo é em relação à saúde mental materna. Se você é mãe e enfrenta algum problema habitacional, você tem de duas a três vezes mais probabilidade de apresentar sintomas depressivos do que uma mãe que vive em uma moradia estável.

Como a saúde mental da mãe afeta as crianças?

Há boas evidências de que, quando as mães apresentam sintomas depressivos, elas têm menos capacidade de interagir com os filhos. Seus filhos mostram mais sinais de atrasos no desenvolvimento. Suas famílias são mais propensas a ter outras dificuldades, como a insegurança alimentar, porque as mães estão tendo dificuldades para trabalhar.

Você começou a escrever sobre os efeitos da habitação na saúde e desenvolvimento infantil duas décadas atrás. Alguma coisa mudou ao longo do tempo?

Definitivamente estamos falando mais sobre a conexão entre moradia e saúde. Acho que a necessidade cresceu. Nós temos que reconhecer que temos uma crise habitacional. Um em cada quatro locatários – portanto, 11 milhões dos 44 milhões de locatários – estão usando mais de 50% de sua renda para o aluguel. Prevê-se que isso aumente em mais 2 milhões de lares na próxima década. Então, você acrescenta a isso cerca de 2,8 milhões de pessoas em risco de despejo e mais de meio milhão de pessoas que estão desabrigadas. Muitas vezes falamos de um tipo de problema habitacional ou de outro tipo de problema, sem entendermos esse problema como uma totalidade. Estamos apenas começando a entender as profundezas da necessidade lá fora.

Por que as pessoas deveriam se importar com os efeitos de uma moradia precária?

Nós todos sabemos que você precisa de um lar estável para ser a base de qualquer coisa. Embora possa parecer que ajudar alguém a ter um lar melhor só ajude a eles mesmos, você está perdendo todo um efeito cascata no quanto isso ajuda a comunidade. Se você tem uma criança que está bem e está indo à escola, isso faz com que todos na sala de aula aprendam melhor. Pessoas com um emprego estável estão pagando impostos e os empregadores não precisam arcar com despesas de demissões e treinamento de nova equipe.  Há realmente boas evidências em relação à segurança pública que mostram que comunidades estáveis são comunidades mais seguras. Temos que sair da mentalidade de que uma moradia digna é uma intervenção em nível individual. Um lar estável é uma intervenção a nível da comunidade. Nós todos nos beneficiamos.

Habitat Magazine Junho/2018.