Quando morar é um privilégio, ocupar é um direito

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Especial Dia Internacional da Luta das Mulheres

Seu nome é Taciana, mas desde que era pequena, todos a chamavam de Tata. Tata foi criada e ainda vive em uma comunidade chamada Pocotó. Localizada no coração de Boa Viagem, um dos bairros mais caros de Recife/PE, Pocotó existe há mais de 15 anos.

A comunidade foi construída lentamente em cima de um túnel por famílias que não tinham outras opções para morar. Como a maioria das famílias da comunidade, Tata veio para Recife com a mãe e os irmãos quando ainda era muito nova. Ela morava em Escada, uma pequena cidade rural do interior de Pernambuco, mas a falta de trabalho levou sua família a se mudar para a capital do estado.

Com as crianças para alimentar, sem oportunidades de emprego e sem renda, a mãe de Tata chegou ao Recife determinada a sustentar sua família.

O sonho de Tata sempre foi viver em um lugar melhor. “Só de morar em uma favela você já é mal visto pelas pessoas. Eles dizem que você não é bom… você é apenas um morador de favela”, explica. Ela lembra que, um dia, voltando para casa depois do trabalho, um motorista parou o carro e começou a gritar que ela e todos os outros que viviam na comunidade eram vagabundos preguiçosos. Ela ficou tão chocada que não conseguiu reagir. Tudo o que ela fez naquela noite foi chorar.

Quando Tatá se casou, ela e o marido Luciano trabalharam duro e, finalmente, conseguiram alugar uma casa fora da comunidade. Tatá lembra daquele dia como um dos mais felizes de sua vida. Foi nessa casa que o casal começou a família: primeiro, deram as boas-vindas ao filho Daniel e, alguns anos depois, nasceu a filha Danielle.

Desde que nasceu, Danielle apresentou vários problemas de saúde. Como Luciano estava ganhando o suficiente para sustentar a família sozinho, Tata parou de trabalhar para se concentrar em criar seus filhos. O primeiro ano de vida de Danielle foi marcado por inúmeras visitas a hospitais, sempre sofrendo com o atraso no recebimento do tratamento por meio do sistema público de saúde. A saúde de Danielle piorou e ela teve que ser internada na UTI. Os custos subiram drasticamente para a família.

“Tudo era muito caro. Uma lata de leite custava R$50. A pomada dela era R$40. Às vezes não tínhamos dinheiro suficiente para comprar comida para o Daniel por causa das despesas da Danielle”, lembra Tata.

A rotina também se tornou muito difícil para Luciano. Ele teve que gerenciar o trabalho, cuidar de sua casa, cuidar de seu filho e fazer visitas aos hospitais. Ele perdeu o emprego e, sem alternativa, a família foi obrigada a voltar para um barraco em Pocotó. Alguns meses depois, Danielle morreu.

Em 2017, um juiz sentenciou um despejo a ser realizado em 3 dias para todas as famílias que viviam na comunidade. Nenhuma solução para o problema da moradia foi oferecida. A ordem judicial foi suspensa na época, mas a ameaça de despejo permaneceu sobre as famílias. Tata se lembra do desespero que sentia por não saber para onde iriam.

Naquele momento, ela decidiu que não sairia de casa sem lutar. Organizada com um movimento social de moradia, Tata e outras famílias de Pocotó decidiram garantir o direito a um lugar decente para viver. Eles participaram da ocupação de um prédio que foi abandonado por mais de 20 anos e devia milhões em impostos sobre a propriedade. O lugar tornou-se a ocupação Marielle Franco e hoje abriga mais de 200 mulheres e seus filhos. Incluindo a Tata.

A história de Taciana e das famílias de Pocotó foi retratada pelo documentário Quem Mora Lá, produzido pela Valete de Copas, em parceria com a Habitat Brasil.