Comunidades resilientes: a importância do plano local de adaptação climática

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As mudanças climáticas deixaram de ser um cenário futuro para se tornarem uma realidade cotidiana nas cidades brasileiras. Enchentes, deslizamentos, períodos prolongados de seca e eventos extremos vêm atingindo com maior intensidade territórios periféricos e comunidades historicamente negligenciadas pelo planejamento urbano.

Dados do Censo 2022 e estudos sobre desigualdade climática indicam que 75% das pessoas mais afetadas por eventos climáticos extremos no Brasil são negras, evidenciando que a emergência climática também é uma questão social e racial.

Em abril de 2026, a Região Metropolitana do Recife, em Pernambuco, enfrentou um novo episódio dessa realidade: chuvas intensas e recorrentes provocaram alagamentos, deslizamentos de terra e o acionamento de protocolos de emergência em diversas áreas da cidade.

O volume de precipitação superou a média esperada, impactando principalmente regiões classificadas como áreas de risco, entre elas, a comunidade de Passarinho, na Zona Norte do Recife. Talvez você não saiba, mas Recife é uma das cidades mais vulneráveis às mudanças climáticas do Brasil, muito propensa a deslizamentos de terra e enchentes. O dado do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU), aponta que a capital pernambucana é a mais ameaçada pelo avanço do nível do mar.

Mudanças climáticas e desigualdade

A vulnerabilidade climática no Brasil está diretamente ligada à desigualdade urbana. Dados oficiais do Estado de Pernambuco apontam que cerca de 1 milhão de pessoas vivem em áreas vulneráveis a deslizamentos e enchentes em Pernambuco, representando 11,6% da população do estado.

Além disso, Pernambuco o estado enfrenta uma das mais graves crises hídricas de sua história recente, com 107 municípios em situação de emergência e barragens em colapso no início de 2026, gerando impactos diretos na agricultura, na pecuária e na economia local.

Durante episódios de chuvas intensas, bairros da zona norte do Recife,  — como Passarinho, Nova Descoberta e Guabiraba, — entram em alerta máximo devido ao risco elevado de deslizamentos.

Esses dados reforçam que a adaptação climática precisa considerar justiça territorial e inclusão social.

SALVADOR, BAHAI, BRAZIL (01/31/19)-Salvador, Brazil. © Habitat for Humanity International/Jason Asteros

A iniciativa Comunidades Resilientes da Habitat Brasil

Para enfrentar esses desafios, a Habitat para a Humanidade Brasil desenvolve a iniciativa Comunidades Resilientes, um projeto de adaptação comunitária implementado em Passarinho (Recife) e futuramente também em Belém (PA) e em Porto Alegre (RS). O objetivo é construir, junto aos moradores, um plano local de adaptação climática baseado na realidade do território.


As atividades incluem agora e oficinas participativas para identificar pontos críticos na comunidade, com intercâmbio entre territórios para a construção coletiva de soluções  e implementação de melhorias definidas pela própria comunidade.

Passarinho: território em risco, comunidade em movimento

Com mais de 20 mil habitantes e cerca de 400 hectares, o bairro de Passarinho possui histórico de lutas por moradia digna e enfrenta desafios estruturais relacionados à mobilidade, infraestrutura urbana e segurança ambiental.

A ocupação predominante em áreas de morro aumenta a exposição a deslizamentos durante períodos de chuva intensa.

De acordo com dados apresentados em reportagem do Marco Zero Conteúdo mulheres representam 50,98% da população e  41,3% dos domicílios são chefiados por mulheres. Esses números mostram que políticas de adaptação climática também dialogam com equidade de gênero, renda e direito à cidade.

O que é adaptação comunitária às mudanças climáticas?

É uma abordagem participativa que coloca moradores e lideranças locais no centro do planejamento e da implementação de soluções climáticas.

Diferentemente de intervenções externas, construídas por empresas ou organizações externas à comunidadecentralizadas, essa metodologia reconhece que quem vive no território possui conhecimento essencial para identificar riscos e construir respostas eficazes.

Na prática, a adaptação comunitária pode incluir:

  • elaboração de planos comunitários de contingência;
  • mapeamento participativo de áreas de risco e rotas de fuga;
  • criação de sistemas de alerta comunitário;
  • reflorestamento de encostas para prevenção de deslizamentos;
  • recuperação de manguezais contra ressacas marítimas;
  • construção de cisternas para convivência com a seca;
  • oficinas sociotécnicas que combinam saber técnico e conhecimento local.

Essas ações fortalecem não apenas a infraestrutura física, mas também a organização social e a capacidade coletiva de resposta. Saiba mais sobre o conceito neste conteúdo da Habitat Brasil.

O território é protagonista

O projeto Comunidades resilientes, da Habitat Brasil, parte do princípio de que os territórios e as pessoas que vivem nele são capazes de construir estratégias de resiliências, proteção e permanência a partir de saberes e experiências ancestrais. Assim, a solução para enfrentar as mudanças climáticas é adaptar antes que algum evento climático extremo cause uma tragédia, e não remover as pessoas.

Esse processo depende de quatro pilares fundamentais: planejamento participativo, infraestrutura segura, coesão social e gestão comunitária de riscos.

Quando esses elementos estão presentes, a comunidade deixa de apenas reagir a emergências e passa a atuar de forma preventiva.

Adaptação comunitária e justiça climática: construindo o futuro das cidades

O agravamento das mudanças climáticas impõe às cidades brasileiras a necessidade de abandonar respostas exclusivamente emergenciais e investir em estratégias preventivas capazes de preparar territórios para eventos extremos cada vez mais frequentes. Nesse contexto, a adaptação comunitária surge como uma abordagem fundamental para reduzir vulnerabilidades e fortalecer a capacidade de reação coletiva.

Ao envolver diretamente moradores na identificação de riscos e na construção das soluções, essa metodologia contribui para reduzir perdas humanas e materiais, ampliar o acesso à informação climática, fortalecer redes locais de solidariedade e promover melhorias duradouras na qualidade de vida. Mais do que intervenções físicas, trata-se de desenvolver capacidades sociais, organizativas e institucionais que permanecem no território mesmo após o término dos projetos.

A experiência em Passarinho evidencia que comunidades em situação de vulnerabilidade não são apenas as mais afetadas pela crise climática — elas também são protagonistas das respostas. Iniciativas como o Comunidades Resilientes demonstram que soluções sustentáveis emergem quando conhecimento técnico e saber popular caminham juntos, transformando adaptação climática em um caminho concreto para a justiça climática e o direito à cidade.

Quer acompanhar outras iniciativas de adaptação climática e direito à moradia? Explore o site da Habitat para a Humanidade Brasil e siga nossas redes sociais para conhecer projetos que fortalecem comunidades em todo o país.

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