Mães solo do Brasil: gênero, sobrecarga e desigualdade

Share this

As famílias brasileiras dependem cada vez mais das mães e matriarcas – uma posição caracterizada por sobrecarga e pouco reconhecimento. Os papéis de gênero mostram que não é à toa que as mulheres chefes de família carregam consigo estigmas, preconceitos e quase nenhuma valorização fora da data comemorativa do Dia das Mães.


As mulheres são as mais afetadas pela pobreza no Brasil, especialmente as mulheres negras, que enfrentam uma interseção de desigualdades de raça e gênero. Muitas mulheres chefiam famílias monoparentais e têm maior risco de viver em situações de vulnerabilidade social e econômica.
O mês de maio traz comerciais de TV, propagandas em outdoors e muita publicidade nas redes sociais, evoca o sentimento de presentear a mulher mais importante da vida do público-alvo com a premissa de que as mães e avós merecem um presente, afinal, elas sempre se doaram por completo para a família.


Assim, pouco a pouco, a luta pelos direitos das mulheres, principalmente das mães solo, é ofuscada. A jornada dupla das mulheres, o trabalho doméstico e o cuidado não remunerado são normalizados e romantizados.

Mães solo

A expressão “mãe solo” modifica o estigma que as mulheres e seus filhos sempre carregaram. Na década de 50 e 60, por exemplo, era muito comum a humilhação das pessoas quando faltava o nome do pai no documento, fomentando o preconceito contra quem era “filha de mãe solteira”.

Enquanto pais ausentes não sofrem nenhum tipo de preconceito sobre sua dignidade, ainda quando são irresponsáveis, as mães solo enfrentam dificuldades com a ausência de rede de apoio e os diferentes preconceitos e desigualdades de gênero. Diferente de “mãe solteira”, que foca no estado civil, a expressão “mãe solo” reconhece que esta mulher é a principal responsável financeira e afetiva na criação.

O que os dados mostram?

De acordo com o censo do IBGE de 2010 e 2022, cresceu em 10,4% o número de domicílios chefiados por mulheres. Hoje cerca de 35,8 milhões (49,1%) dos lares brasileiros têm mulheres como as principais responsáveis financeiras pela manutenção das famílias.

A grande maioria das mulheres responsáveis pelo domicílio tem mais de 25 anos (93,7%), com maior concentração na faixa de 40 a 59 anos (38,2%). Uma nova tendência chama atenção com cerca de 26,7% dos domicílios chefiadas por mulheres idosas.

Dados da PNAD Contínua analisados pela FGV indicam que, na última década, houve um aumento de 17,8% no número de lares chefiados por mães solo — passando de 9,6 milhões para 11,3 milhões. Isso representa um acréscimo de quase dois milhões de mulheres nessa condição ao longo de dez anos.

Além disso, o déficit habitacional no Brasil é de 6, 2 milhões de domicílios e 62,6% destes são chefiados por mulheres, segundo dados da Fundação João Pinheiro (2024). Os lares chefiados por mulheres são maioria dos que enfrentam ônus excessivo de aluguel, cohabitação e moradias inadequadas.

Para completar, a sessão ‘Outras Formas de Trabalho 2022” da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) revela que as mulheres que exercem trabalho remunerado gastam 17 horas e 48 minutos com afazeres domésticos e/ou cuidados de pessoas, enquanto os homens na mesma posição dedicam 11 horas. São 6 horas e 48 minutos a mais que não são levados em consideração na saúde ou na empregabilidade das mulheres.

Interseccionalidade: quando gênero e raça se encontram

As relações de gênero não tratam apenas das diferenças entre homens e mulheres do ponto de vista biológico: é importante olhar para o papel que as pessoas desempenham dentro de uma estrutura social em relação ao gênero, que podem influenciar desde as oportunidades de trabalho até os comportamentos em relações familiares e sociais. Das interações surgem desigualdades devido à forma como a sociedade entende e valoriza diferentes identidades e expressões de gênero.

No Brasil, gênero e raça operam de forma combinada na produção das desigualdades de renda. Mulheres pretas e pardas enfrentam a realidade com a menor renda per capita, enquanto homens brancos concentram as melhores condições relativas.

Segundo dados da Pnad contínua do IBGE no Raseam 2025 – Relatório Anual Socioeconômico da Mulher, entre os domicílios chefiados por mulheres pretas e pardas, 70% das famílias vivem com renda de até 1 salário mínimo per capita e apenas 1,4% delas estão na faixa acima de 5 salários mínimos. Observa-se a discrepância quando, entre as famílias chefiadas por homens brancos, 34% vivem com menos de 1 salário mínimo per capita e 10,9%  vivem com mais de 5 salários mínimos per capita.

A falta de renda reflete numa questão de sobrevivência, quando a insegurança alimentar bate à porta e as famílias ficam sem alternativas. No 4º trimestre de 2023, segundo a PNAD Contínua, o Brasil registrava 21,6 milhões de domicílios em situação de insegurança alimentar. Desse total, 59,4% eram chefiados por mulheres, o que corresponde a aproximadamente 12,8 milhões de lares.

Mães solo são prioridade no atendimento da Habitat Brasil

O cenário de desigualdades de gênero no Brasil, especialmente no que diz respeito à realidade das mulheres, evidencia a urgência de políticas públicas e iniciativas que promovam a equidade, ou seja, que identifiquem que quem mais é afetado seja priorizado para alcançar o mínimo de dignidade e direitos.

Com o objetivo de ampliar oportunidades e garantir o direito à moradia adequada, ao acesso à água e ao saneamento, a Habitat Brasil adota uma abordagem interseccional em seus critérios de seleção de famílias, bem como em seus programas de melhorias habitacionais e ações de incidência política.

“…até a saúde dos meus filhos melhorou! Juninho estava tendo muitas crises de asma, desde outubro (…) e uma das coisas que a pneumologista falava era a questão do ambiente. Ela sempre perguntava: (…)” como é lá na sua casa? Tem umidade? Como é quando chove?” E eu falava pra ela e ela sempre questionava que esse ambiente precisava ser melhorado. Muito, muito obrigada mesmo”
Cintia, 48 anos – Coque, Recife (PE)

Nesse contexto, priorizar mulheres chefes de família, especialmente mães solo e mulheres negras, é parte central da nossa atuação.

Entre 2023 e 2025, realizamos 641 atendimentos. Desses, 522 foram destinados a famílias chefiadas por mulheres, sendo 49% por mulheres pardas e 19% por mulheres pretas. Além disso, 55% das famílias beneficiadas têm renda inferior a um salário mínimo. Entre nossos critérios realizamos uma análise social para compreender a realidade das pessoas que mais precisam de moradia para além dos dados.. nosso propósito é seguir promovendo moradia digna para quem mais precisa. Afinal, mães solo precisam de moradias dignas e seguras para suas famílias.

A gente sonha com um Brasil em que nenhuma mãe precise escolher entre pagar o aluguel ou colocar comida na mesa. Junte-se à nossa causa e acompanhe a Habitat Brasil nas redes sociais.

Siga nossas redes sociais:

Instagram | LinkedIn | Facebook