Período de chuvas agrava injustiça climática no Brasil

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Chuvas intensas agravam desigualdades urbanas

Com a intensificação do período de chuvas em diferentes regiões do país, entre janeiro e março, o Brasil volta a conviver com um cenário já conhecido. Alagamentos, deslizamentos e enxurradas atingem, de forma desproporcional, territórios e áreas urbanas em situação de vulnerabilidade social.

Nesse contexto, os eventos extremos deixam de ser apenas fenômenos climáticos. Eles passam a evidenciar desigualdades estruturais que já marcam o território brasileiro.

Relatório evidencia racismo ambiental

O estudo “Sem Moradia Digna Não Há Justiça Climática”, realizado pela Habitat para a Humanidade Brasil, evidencia o racismo ambiental a partir da investigação em 129 cidades brasileiras. Nessas localidades, a população negra residente em áreas de risco é 10,3% maior do que a média.

Esse dado, portanto, reforça que a exposição ao risco não é aleatória. Ao contrário, ela acompanha padrões históricos de exclusão social e territorial.

Moradia precária e ausência de políticas estruturantes

O problema é estrutural. Milhões de brasileiros vivem em moradias precárias, localizadas em áreas com infraestrutura insuficiente. Muitas dessas regiões não contam com drenagem adequada, contenção de encostas ou acesso regular à água tratada e ao saneamento.

Além disso, a ausência de políticas consistentes de habitação e adaptação urbana agrava o cenário. Como consequência, o impacto das chuvas é sentido de forma mais intensa por quem já enfrenta desigualdades históricas. Assim, a injustiça climática se aprofunda.

Dados do Atlas Digital de Desastres

Em 2024, o Brasil registrou 263 óbitos e mais de 1 milhão de desalojados. Os prejuízos materiais superaram R$ 10 bilhões. Além disso, as perdas chegaram a R$ 1 bilhão no setor público e R$ 7 bilhões no setor privado.

Os dados estão associados a eventos extremos, como chuvas intensas, enchentes, alagamentos e movimentos de massa, com maior incidência entre janeiro e maio.

Portanto, os impactos são sociais e econômicos. Ainda assim, atingem de forma mais severa populações que vivem em áreas sem infraestrutura adequada, agravando a injustiça climática.

O caso de São Sebastião (SP)

Na madrugada de 19 de fevereiro de 2023, durante o Carnaval, a cidade de São Sebastião enfrentou chuvas históricas. Em menos de 24 horas, o volume acumulado superou 600 mm, com registros próximos a 700 mm em alguns pontos.

Como resultado, houve deslizamentos de terra, inundações e soterramento de casas, levando à morte de 64 pessoas. Desde então, as comunidades convivem com moradias danificadas e risco de novas enchentes.

Esse episódio ilustra um padrão recorrente. Sem adaptação urbana e políticas habitacionais estruturantes, famílias permanecem expostas a novos desastres a cada temporada de chuvas.

“Este cenário precisa ser enfrentado com respostas emergenciais e com políticas públicas de longo prazo. Sem a integração da habitação e dos assentamentos informais às estratégias de adaptação climática e de redução de riscos de desastres, o país seguirá repetindo o mesmo ciclo: chuvas intensas, perdas humanas, prejuízos bilionários e comunidades reconstruindo suas vidas a cada novo verão” afirma Mohema Rolim, gerente de programas da Habitat Brasil.

Habitat Brasil e o compromisso com a dignidade

A Habitat para a Humanidade Brasil é uma organização da sociedade civil que, há mais de 33 anos, atua para combater as desigualdades e garantir que pessoas em condições de pobreza tenham um lugar digno para viver. Presente em mais de 70 países, a organização promove a incidência em políticas públicas pelo direito à cidade e soluções de acesso à moradia, à água e ao saneamento, em articulação com diversos setores e comunidades.