As mudanças climáticas já fazem parte da realidade das cidades brasileiras, e as condições de moradia influenciam diretamente o quanto cada família está exposta aos seus impactos. Enchentes, deslizamentos, ondas de calor e outros eventos extremos se tornam ainda mais graves quando atingem casas com problemas estruturais, falta de saneamento ou territórios vulneráveis.
Dados da Fundação João Pinheiro mostram que o déficit habitacional brasileiro caiu para o menor nível da série histórica. Ao mesmo tempo, o país chegou a 27 milhões de moradias urbanas com algum tipo de inadequação, mostrando que milhões de famílias ainda convivem com problemas relacionados às condições da casa e ao acesso à infraestrutura básica.
Esse cenário ganha ainda mais importância diante da crise climática, porque as condições da moradia e do território influenciam diretamente a capacidade das famílias de enfrentar enchentes, deslizamentos, ondas de calor e outros eventos extremos. Por isso, garantir moradia digna é um caminho essencial para ampliar a adaptação climática e construir cidades mais seguras e resilientes.
O que a moradia tem a ver com as mudanças climáticas?
A relação começa dentro de casa, porque as condições da moradia influenciam diretamente a forma como uma família enfrenta um evento climático extremo.
Uma casa com infiltrações, estrutura comprometida ou problemas de saneamento pode se tornar ainda mais vulnerável durante períodos de chuvas intensas. Em áreas sujeitas a alagamentos ou deslizamentos, o risco aumenta porque as condições da moradia se somam às características do próprio território.
Quando falamos em adaptação climática, precisamos considerar onde e como as pessoas vivem. Afinal, preparar uma cidade para as mudanças do clima também passa por reduzir os riscos enfrentados diariamente dentro das casas e das comunidades.
Como uma moradia digna contribui para a adaptação climática?
Adaptar-se às mudanças climáticas significa criar condições para que pessoas e territórios consigam enfrentar seus impactos com mais segurança e reduzir possíveis perdas.
Nesse processo, melhorias habitacionais podem atuar diretamente sobre vulnerabilidades presentes nas casas. Reparos em telhados e estruturas, soluções para infiltrações, melhorias nas instalações sanitárias e acesso à água segura são exemplos concretos de intervenções que contribuem para condições mais seguras de moradia.
Mas a adaptação também precisa considerar o entorno dessas casas, porque riscos como alagamentos e deslizamentos envolvem características de todo o território. Por isso, intervenções comunitárias, infraestrutura urbana e planejamento precisam caminhar junto às melhorias habitacionais.
As mudanças climáticas aprofundam desigualdades que já existem
As famílias mais expostas aos eventos climáticos extremos muitas vezes também possuem menos recursos para se preparar ou reconstruir suas vidas depois de um desastre.
O Relatório de Atividades 2025 da Habitat Brasil chama atenção justamente para essa relação: populações negras, vulnerabilizadas e periféricas enfrentam historicamente maiores dificuldades de acesso à moradia digna, água segura e saneamento e, com o agravamento da crise climática, ficam ainda mais expostas a riscos e perdas.
Esse cenário mostra por que as estratégias de adaptação precisam considerar as desigualdades presentes nos territórios. Quando políticas climáticas chegam às comunidades mais expostas, elas podem contribuir diretamente para reduzir riscos que fazem parte da rotina dessas famílias.
O papel das políticas públicas na adaptação climática
A dimensão do problema exige ações que conectem habitação, planejamento urbano, infraestrutura e prevenção de riscos.
Políticas públicas podem contribuir com melhorias habitacionais, acesso à água e ao saneamento, intervenções em comunidades vulnerabilizadas e soluções para famílias que vivem em áreas de risco. Também podem incorporar critérios de adaptação climática aos programas habitacionais e ao planejamento das cidades.
A participação das comunidades é outro ponto importante, porque moradores conhecem os problemas enfrentados diariamente em seus territórios. Esse conhecimento ajuda a identificar riscos e construir respostas relacionadas às necessidades de cada local.
A atuação da Habitat Brasil
Diante do avanço das mudanças climáticas e de seus impactos desiguais, a Habitat para a Humanidade Brasil atua com adaptação climática em comunidades e favelas e com resposta a desastres, incluindo ações voltadas à recuperação das condições de moradia com segurança e dignidade.
Em 2025, a organização deu continuidade ao apoio às famílias afetadas pelos desastres no Rio Grande do Sul e iniciou o projeto Comunidades Resilientes, que promove, a construção participativa de planos comunitários de adaptação climática em territórios de Recife, Belém e Porto Alegre, além da implementação de intervenções comunitárias e habitacionais.
A Habitat Brasil também levou a relação entre moradia e clima para espaços de debate público. Durante a COP30, em Belém, a organização participou como palestrante de mais de 20 eventos dentro e fora dos espaços oficiais, reforçando a importância de incluir a realidade das famílias que vivem em áreas de risco nas discussões sobre a crise climática.
Moradia digna faz parte da resposta à crise climática
O avanço das mudanças climáticas exige cidades preparadas para eventos cada vez mais intensos, e essa preparação passa pelas condições em que as pessoas vivem.
Quando uma família tem uma casa mais segura, acesso à água, saneamento e um território mais preparado para enfrentar eventos extremos, sua exposição a determinados riscos pode ser reduzida. Por isso, investir em moradia digna e fortalecer políticas públicas voltadas às comunidades mais vulnerabilizadas são caminhos importantes para ampliar a resiliência das cidades.
Colocar a moradia digna no centro da adaptação climática significa incluir a realidade de milhões de famílias nas soluções para o presente e para o futuro das cidades brasileiras.
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