Adaptação climática comunitária: como Lami, Terra Firme e Passarinho estão se preparando para enchentes e deslizamentos

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Da Amazônia ao Sul do país, comunidades vulnerabilizadas por décadas de desigualdade urbana estão fazendo algo que o poder público, em grande parte, ainda não fez: planejar a própria adaptação à crise climática. Enquanto enchentes, alagamentos e deslizamentos se tornam mais frequentes e mais destrutivos nas cidades brasileiras, moradores de três territórios diferentes assumiram a linha de frente desse planejamento.

Resposta direta: o Programa Comunidades Resilientes, da Habitat para a Humanidade Brasil, é uma iniciativa que capacita moradores de áreas de risco a mapear ameaças climáticas e construir, coletivamente, seus próprios planos de adaptação. Em 2026, o programa está ativo em três territórios — Passarinho (Recife/PE), Terra Firme (Belém/PA) e Lami (Porto Alegre/RS) —, combinando conhecimento técnico com saberes locais para reduzir riscos de enchentes, alagamentos e deslizamentos.

O que é o Programa Comunidades Resilientes?

O Comunidades Resilientes é uma metodologia de Adaptação Baseada na Comunidade que transforma moradores de áreas vulneráveis em protagonistas do planejamento de risco climático, em vez de receptores passivos de ações emergenciais pós-desastres. A lógica é preventiva, não reativa.

Na prática, isso significa que o programa não chega a um território com soluções prontas. Ele estrutura um processo participativo, grupos de governança, oficinas de diagnóstico e mapeamento coletivo de riscos, para que sejam os próprios moradores, articulados com conhecimento técnico, a decidir quais ações de adaptação fazem sentido para o lugar onde vivem.

Os pilares metodológicos incluem:

  • Mapeamento participativo de riscos, feito com quem vive o território diariamente
  • Grupos de governança comunitária, responsáveis por conduzir as decisões
  • Construção coletiva de planos locais de adaptação, priorizando ações viáveis
  • Definição de prioridades que permanecem mesmo após o encerramento do projeto

Por que o planejamento climático comunitário é urgente no Brasil agora?

O planejamento climático comunitário é urgente porque a maioria dos municípios brasileiros mais expostos a riscos climáticos simplesmente não tem planos de prevenção prontos. Um estudo do Cemaden, publicado em 2026 na Revista Brasileira de Geografia (IBGE), mostra que 75% dos municípios prioritários em gestão de riscos têm menos da metade dos planos e mapeamentos obrigatórios, e 91% não têm nenhum projeto de obra para reduzir riscos.

Esse dado expõe uma lacuna estrutural: enquanto o poder público avança lentamente na regulamentação e execução de obras de prevenção, comunidades seguem expostas a eventos extremos que já não são exceção, mas rotina. É nesse vácuo que iniciativas de adaptação baseada na comunidade ganham relevância — não como substituto da política pública, mas como resposta imediata e territorializada enquanto ela não chega.

Indicador (Cemaden/IBGE, 2026)Percentual
Municípios prioritários com menos da metade dos planos/mapeamentos obrigatórios75%
Municípios prioritários sem nenhum projeto de obra de redução de risco91%

Como o programa funciona em cada território?

Cada território segue o mesmo método — oficinas, governança comunitária e diagnóstico de risco —, mas define ações próprias de acordo com sua realidade geográfica e histórico de desastres. Veja como o programa se estrutura em Lami, Terra Firme e Passarinho.

Lami (Porto Alegre/RS): pós-enchente do Guaíba

Lami é um bairro fortemente atingido pelas enchentes do Guaíba em 2024, e o projeto conta com apoio de R$ 348,6 mil do fundo Regenera RS. Após a realização de oito oficinas com a comunidade, os moradores devem priorizar entre três e cinco ações de adaptação para o bairro.

Terra Firme (Belém/PA): drenagem e alagamentos recorrentes

Terra Firme é uma comunidade com mais de 60 mil habitantes e histórico consolidado de problemas de drenagem, enchentes e alagamentos. Ali, o projeto prevê a definição de ações de adaptação a partir da governança comunitária, seguindo o mesmo processo participativo de diagnóstico e priorização. A iniciativa em Belém é viabilizada pelo fundo Home Equals, da Habitat for Humanity.

Passarinho (Recife/PE): deslizamentos e risco por chuvas

Passarinho é um território com mais de 20 mil habitantes e forte exposição a deslizamentos e a outros riscos associados às chuvas. Assim como em Belém, o projeto em Recife integra o esforço de fortalecer a capacidade local de prevenção e adaptação, também viabilizado pelo fundo Home Equals, da Habitat for Humanity.

Quadro-resumo: os três territórios do Comunidades Resilientes em 2026

TerritórioCidade/EstadoPopulação aproximadaPrincipal risco climáticoFinanciamento
LamiPorto Alegre/RS6 mil+ habitantesEnchentes (Guaíba)R$ 348,6 mil — Fundo Regenera RS
Terra FirmeBelém/PA60 mil+ habitantesDrenagem, enchentes, alagamentosFundo Home Equals (Habitat for Humanity)
PassarinhoRecife/PE20 mil+ habitantesDeslizamentos e riscos por chuvaFundo Home Equals (Habitat for Humanity)

Qual é o objetivo final do Comunidades Resilientes?

O objetivo final é deixar um legado que sobrevive ao projeto: planos de adaptação e capacidade de organização comunitária que continuam ativos no território mesmo depois que a iniciativa termina. Por isso o programa não propõe soluções centralizadas — ele investe em processo, não em obra pronta.

Mais do que uma resposta emergencial a desastres, o Comunidades Resilientes propõe uma mudança de lógica: transformar moradores em agentes de prevenção e planejamento. O processo combina mapeamento participativo, construção de planos locais e definição de prioridades duradouras, articulando conhecimento técnico e saberes locais para desenvolver estratégias adequadas à realidade de cada comunidade.

Sobre a Habitat para a Humanidade Brasil

A Habitat para a Humanidade Brasil é uma organização da sociedade civil que atua há mais de 30 anos para combater desigualdades e garantir que pessoas em situação de pobreza tenham um lugar digno para viver. Presente em mais de 70 países, a organização promove incidência em políticas públicas pelo direito à cidade e soluções de acesso à moradia, água e saneamento, em articulação com diversos setores e comunidades.

Quer apoiar a expansão do Comunidades Resilientes?

O Comunidades Resilientes está em expansão e busca parceiros institucionais e corporativos para levar essa metodologia a novos territórios de risco pelo Brasil. Sua empresa ou organização pode apoiar comunidades vulnerabilizadas a construírem seus próprios planos de adaptação climática — antes que o próximo desastre aconteça.

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Perguntas frequentes sobre o Comunidades Resilientes

O que é Adaptação Baseada na Comunidade?

É uma abordagem que coloca moradores no centro das decisões sobre como proteger seus territórios, combinando conhecimento técnico com saberes locais em vez de impor soluções prontas de fora.

Quais cidades participam do Comunidades Resilientes em 2026?

Recife (bairro Passarinho), Belém (bairro Terra Firme) e Porto Alegre (bairro Lami) são os três territórios em que o programa está sendo implementado neste ciclo.

Quem financia o Comunidades Resilientes?

Em Porto Alegre, o financiamento vem do fundo Regenera RS (R$ 348,6 mil). Em Belém e Recife, o projeto é viabilizado pelo fundo Home Equals, da Habitat for Humanity.

Por que os municípios brasileiros não têm planos de risco climático prontos?

Segundo o Cemaden (2026), 75% dos municípios prioritários têm menos da metade dos planos e mapeamentos obrigatórios, e 91% não têm nenhum projeto de obra de redução de risco — uma lacuna estrutural de investimento e planejamento público.

Como uma comunidade define suas próprias ações de adaptação climática?

Por meio de oficinas e grupos de governança comunitária, os moradores diagnosticam riscos coletivamente e priorizam entre três e cinco ações concretas, como aconteceu em Lami após oito oficinas.