Entre os dias 10 e 12 de abril, Recife e Olinda foram palco do Encontro Moradia e Justiça Climática nas Cidades, uma iniciativa da Habitat para a Humanidade Brasi, em parceria com o Ibura Mais Cultura e o GRIS Espaço Solidário, que reuniu organizações, especialistas, lideranças comunitárias e representantes da sociedade civil de diferentes regiões do país.
O encontro foi um momento de articulação e construção coletiva sobre moradia e crise climática, reunindo organizações como a Coalizão Negra por Direitos, o Geledés – Instituto da Mulher Negra, o Fórum Nacional da Reforma Urbana, o Greenpeace e o Instituto Pólis, além de lideranças comunitárias de diferentes regiões brasileiras, especialmente do Norte e Nordeste.

Um debate que parte dos territórios
Ao longo dos três dias de programação, o encontro conectou diferentes perspectivas: da análise de políticas públicas às vivências concretas em comunidades impactadas por eventos climáticos extremos.
As atividades começaram com mesas de discussão no Mercado Eufrásio Barbosa, em Olinda, abordando como moradia e justiça climática se entrelaçam e quais são os desafios para incorporar esse tema nas agendas públicas. O debate reforçou a necessidade de reconhecer a moradia como eixo estruturante das políticas de adaptação climática.
Aprendizados que vêm da prática
No segundo dia, o encontro se deslocou para territórios da Região Metropolitana do Recife. As visitas às comunidades do Ibura e da Várzea permitiram uma imersão em realidades diretamente afetadas por desastres climáticos, como alagamentos e deslizamentos.
Esses momentos foram construídos em parceria com organizações locais, como o Ibura Mais Cultura e o GRIS Espaço Solidário, que atuam diretamente nos territórios visitados e contribuíram para conectar as discussões nacionais às realidades locais.
Além das experiências práticas, os espaços de diálogo revelaram pontos em comum entre territórios diversos: a sobrecarga das lideranças comunitárias, a ausência ou insuficiência de políticas públicas e a urgência de respostas estruturais que garantam o direito de permanecer com segurança nos territórios.

Construindo narrativas e ampliando o debate
O último dia do encontro, realizado no Centro de Cultura Luiz Freire, em Olinda, trouxe à centralidade o papel da comunicação na construção de narrativas sobre moradia e justiça climática.
A discussão destacou como a forma de comunicar influencia a percepção pública sobre os territórios e pode reforçar ou combater estigmas. Também reforçou a importância de dar visibilidade às soluções já existentes nas comunidades, ampliando vozes que historicamente foram invisibilizadas.

Moradia no centro da ação climática
Um dos principais legados do encontro foi o fortalecimento do entendimento de que não é possível enfrentar a crise climática sem colocar a moradia no centro das estratégias.
Esse debate dialoga diretamente com evidências já sistematizadas pela Habitat Brasil, como mostra o estudo “Sem Moradia Digna, Não Há Justiça Climática”, que aprofunda a relação entre vulnerabilidade habitacional e os impactos desproporcionais da crise climática nas populações mais vulnerabilizadas.
Em diferentes momentos, ficou evidente que populações mais vulnerabilizadas seguem sendo as mais impactadas por eventos extremos — seja por enchentes, deslizamentos ou secas — e, ao mesmo tempo, são aquelas com menos acesso a políticas públicas que garantam proteção, adaptação e permanência digna.
Nesse contexto, ganha força a necessidade de políticas que não apenas respondam a emergências, mas que atuem de forma preventiva e estrutural, reconhecendo o direito à cidade e à moradia adequada como parte essencial da justiça climática.
Como destaca Raquel Ludermir, gerente de Incidência Política da Habitat para a Humanidade Brasil:
“Ninguém escolhe morar em áreas de risco, as pessoas moram por falta de alternativas de moradia que caibam no bolso. O grande problema é quando a adaptação às mudanças climáticas se confunde com remoção.”
Próximos passos: Belém e Manaus
O encontro no Recife também abriu caminho para a continuidade dessa agenda em outras regiões do país. As próximas edições já estão previstas para acontecer em Belém e Manaus, ampliando o diálogo com territórios que enfrentam outros impactos da crise climática, como a seca dos rios e seus efeitos sobre populações ribeirinhas.
A expectativa é aprofundar as conexões construídas, fortalecer redes locais e seguir impulsionando soluções que partem dos territórios, respeitando suas especificidades.
Ao conectar diferentes realidades e experiências, o Encontro Moradia e Justiça Climática nas Cidades reforça um ponto central: enfrentar a crise climática passa, necessariamente, por garantir que todas as pessoas tenham um lugar seguro, digno e adequado para viver.
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