25 anos – O início de tudo: a chegada da Habitat no Brasil

Neste ano, estamos comemorando os 25 anos da Habitat para a Humanidade Brasil. Como parte das celebrações, publicaremos a história da organização, curiosidades e detalhes dessa caminhada de luta por um país onde todos tenham um lugar adequado para morar. Confira abaixo a 1ª parte da nossa história, como tudo começou.
O iní­cio de tudo: a chegada da Habitat no Brasil

O contexto era de fins da década de 1980, o paí­s passava por um perí­odo de efervescente engajamento social pela redemocratização de seu sistema polí­tico. Instituições, organizações, movimentos sociais e sociedade civil, com atuação nos mais diferentes contextos e realidades sociais, se envolveram neste processo polí­tico que culminou na efetivação da Constituição Federal de 1988. Em muitas cidades do paí­s, populações de baixa renda de diversos assentamentos populares foram protagonistas de uma importante luta pelo direito à  posse segura da terra, contra remoções injustas, pela função social da propriedade e reforma urbana. E na periferia de Belo Horizonte, em uma comunidade de habitações precárias, o importante trabalho social de um centro metodista ganhava dimensões significativas que chamaria a atenção e traria a Habitat For Humanity para terras brasileiras.

Era a comunidade de São Gabriel, onde barracões, casas de madeira e papelão, aglomeravam pessoas esperançosas, gente humilde que migrou em busca de oportunidades na grande cidade. Lá, missionários da igreja metodista desenvolviam um trabalho de geração de renda, organização comunitária, empoderamento de mulheres e pequenas melhorias nas condições de moradia. Das crenças e valores norteadores do trabalho deste centro religioso à certeza de que condições adequadas de moradia são a chave para a superação da pobreza, ao proporcionarem saúde, autoestima e segurança econômica para as famí­lias. Preceito que fundamenta o direito humano à  moradia adequada. Visão compartilhada pela Habitat, que desde 1976 já atuava em diversos paí­ses do mundo na construção de moradias para populações de baixa-renda.

Maria Tereza Greathouse, ou Teca, como é conhecida, era uma das missioná¡rias à frente do Centro Comunitário Metodista do Bairro de São Gabriel, e, com o tempo, passou a ser uma importante porta-voz da comunidade. O seu marido, o norte-americano Gordon Greathouse, que conhecia o trabalho da Habitat for Humanity, a incentivou a entrar em contato mostrando o empenho que vinha sendo realizado no bairro e a vontade de estender o trabalho. Hoje, com 71 anos, Teca tem boas lembranças desse perí­odo de intenso engajamento junto às famí­lias.

“A comunidade é que foi o sujeito da história. Todos os passos que nós demos foram decididos em assembleias. Definir os critérios de seleção das famí­lias foi um dos processos mais longos, mais cansativos, mas mais bonitos que nãs vivemos. Um processo extremamente participativo, democrático, cansativo, longo, nãs ficamos quase dois anos pra selecionar essas famí­lias. Vêmos uma solidariedade, uma generosidade na comunidade, que muitas vezes não vemos nas classes médias. ɝ, relembra Teca.

Maria Tereza (Teca) e Elenice Rodrigues.

Maria Tereza (Teca) e Elenice Rodrigues.

Em 1986, um representante da Habitat for Humanity visita a comunidade, atestando as precárias condições de moradia do lugar, e ao mesmo tempo seu propí­cio contexto social para implementação do projeto “Casa para a Humanidade” da organização“ que visava a construção de 10.000 moradias populares em todo o globo e já estava presente na época em mais de 25 paí­ses, como Peru, Mêxico, Guatemala, Nicarágua, Austrália, EUA, Ilhas do Caribe e outros. A existência de um bom ní­vel de organização comunitária e a inserção e atuação já em curso do centro metodista, capacitando e formando lideranças e em sua maioria mulheres, chamaram a atenção do visitante. Eram fortes indí­cios de que o projeto tinha tudo para ser exitoso no Brasil. E assim florescia esta bela parceria entre o Centro Metodista, a comunidade de São Gabriel e a Habitat para a Humanidade Brasil.

Com muita alegria, os membros do centro comunitário receberam a notí­cia de que a Habitat for Humanity disponibilizaria a São Gabriel um orçamento para a construção de 200 moradias. Mas ainda teriam uma longa jornada até esses valores virarem lares, era preciso pressionar o governo municipal para a liberação de terreno público ocioso que pudesse acomodar o projeto habitacional. Enquanto isso, representantes estrangeiros vieram ao Brasil auxiliar o iní­cio do projeto, com a ideia de que os atores locais tomassem a frente do processo, assim alguns moradores da própria comunidade foram capacitados para assumir cargos de gerência dentro do pequeno escritório da Habitat Brasil, que ia sendo consolidado em uma sala do centro comunitário.

Foi no bairro de nome Liberdade onde foram erguidas as primeiras moradias pela organização no Brasil. Após pouco mais de um ano de espera, a prefeitura de Belo Horizonte disponibiliza neste bairro um terreno para o projeto, onde também estavam sendo construí­dos outros conjuntos habitacionais populares, uma antiga região rural da cidade que há muito foi incorporada pela expansão urbana. Para as famí­lias, que viviam não tão distante dali, cerca de 6 km, foi uma grande vitória. A Habitat Brasil trouxe com o projeto uma metodologia até então incomum no paí­s. A construção do habitacional seria feito em regime de mutirões autogeridos, os próprios beneficiados eram incentivados a participarem, recebendo a orientação e supervisão técnica de profissionais da área. Um modelo que foi bem aceito pela comunidade.

Elenice Rodrigues, uma das beneficiadas, relembra um pouco como foi esse momento especial de autoconstrução e mobilização da comunidade em prol da produção de seu próprio espaço comum. Quando perguntada sobre como eram os mutirões, fala de sua importância não apenas como possibilidade de custear a obra e garantir sua eficiência, mas sobretudo como forma de entrosamento das famílias e da formação dos valores comunitários:

“Foi a coisa mais gratificante que teve nisso tudo, porque a gente não conhecia as pessoas e trabalhar todos juntos no mutirão… Tinha um ônibus que trazia o pessoal de São Gabriel. Trazia o pessoal, chegava aqui, nunca tivemos problema com ninguém no mutirão. Todo mundo trabalhava igual. Se eu carregasse lata de massa, a outra carregava lata de massa, todo mundo fazia tudo. Então quando nos mudamos pra cá, parecia que uma família tinha se mudado. As casas não tinham muro, todo mundo olhava a casa de todo mundo. A mãe que ia trabalhar, a gente olhava os filhos da outra”.

Casada, mãe de seis filhos, migrou do interior da Bahia com a família, para que o marido recebesse tratamento médico especial, devido a sua doença de glaucoma. Tinha uma vida muito sofrida antes do imóvel, moravam de aluguel em um barraco de apenas um vão. Em outubro de 1988, seis meses após o início dos mutirões, recebeu sua casa, ainda sem água, luz, janelas. E, com o tempo, as casas iam sendo finalizadas e outras construídas. Assim, mais famílias iam chegando ao bairro, endossando uma outra luta, agora pelo acesso aos serviços, como água, luz e educação, que seriam alcançados com mais um ano de pressão no setor público.

Fotos do bairro Liberdade

A Habitat para a Humanidade financiou o imóvel das famílias, que pagavam valores mensais acessíveis e condizentes com suas realidades financeiras. As moradias, com dois quartos, sala, cozinha, área de serviço externa, contava com área construída de 42 m², podendo posteriormente ser ampliada para até 62 m². A medida que as casas iam ficando prontas eram destinadas às famílias que já teriam cumprido sua carga horária de dedicação aos mutirões, estipulada em 900h, assumindo posteriormente o compromisso de contribuir durante até oito anos com parcelas que representavam até 20% da renda familiar. Tratavam-se de valores até superiores ao que as famílias vinham gastando com o aluguel, mas aceitaram prontamente pois seria destinado a um imóvel de maior qualidade e que se tornaria próprio. As parcelas que iam sendo pagas voltavam à organização e eram utilizadas na continuidade do projeto e beneficiamento de mais pessoas em outros países.

Assim, víamos ganhando forma no Brasil um interessante modelo de desenvolvimento de comunidades urbanas. Preocupado em garantir a melhoria das condições de moradia do lugar, mas também de estimular a participação e engajamento das pessoas em todo o processo. Forma que se mostra importante na educação, construção de valores e sentidos comunitários, caros às populações de baixa-renda que vivem em assentamentos precários e informais das cidades brasileiras, onde a auto-organização é fundamental na busca e conquista do acesso aos bens e serviços públicos básicos, como água, luz, saúde, educação, saneamento, etc.

Habitat no mundo

A Habitat For Humanity nasce em 1976, quando Millard Fuller, advogado , empresário e pastor da igreja metodista, idealiza um trabalho destinado a resolver de forma prática o problema de moradias inadequadas. Lança o projeto intitulado “Casa para a Humanidade”, onde procura desenvolver experiências comunitárias que promovam o ser humano, acreditando que as famílias não necessitam de assistencialismo, mas de apoio financeiro e comunitário para realizarem seu sonho de moradia própria.

Atualmente, a Habitat atua em mais de 70 países, e já beneficiou mais de 9,8 milhões de pessoas ao redor do mundo. Este ano completa 25 anos de atuação no Brasil, e somente aqui a organização já beneficiou mais de 76 mil pessoas através de projetos em 11 estados. Com a prestação de auxílio às famílias na construção e reforma de suas casas, oferecendo assistência técnica para a moradia, incluindo apoio legal, educação financeira e treinamento em construção.

 

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