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Como uma Casa Pode Definir o Futuro de uma Criança

Moradia é muito mais do que endereço. Um lar adequado é essencial para o desenvolvimento, crescimento e para a saúde das crianças.
Na matéria abaixo, publicada originalmente no The Atlantic, Alexia Fernández Campbell escreve sobre estudo realizado em Cleveland, nos Estados Unidos, que analisa as correlações entre condições de moradia e o desempenho escolar de crianças da cidade.

Como uma Casa Pode Definir o Futuro de uma Criança

por Alexia Fernández Campbell

Muito tem sido escrito sobre como o ambiente de uma criança pode afetar ou ajudar o seu desenvolvimento nos primeiros e cruciais anos da vida. Pesquisadores identificaram que crianças pobres que crescem em bairros pobres têm menos probabilidade de serem bem-sucedidas do que crianças pobres que crescem em bairros mais ricos e, no mês passado, escrevi sobre se dá como a chance de sucesso de alguém no âmbito de um quarteirão de cidade.

Dando um zoom ainda maior, em um estudo recente da Case Western Reserve University, em Cleveland, cientistas sociais queriam saber se a condição física de um lar poderia estar ligado ao desempenho escolar de uma criança. Eles também queriam saber se habitações degradadas estavam relacionadas com um maior risco de abuso infantil, instabilidade doméstica e envenenamento por chumbo, que sabidamente afetam resultados acadêmicos nos primeiros anos de escola.

Cleveland, como outras cidades pós-industriais do Rust Belt (cinturão da ferrugem, ou cinturão da manufatura), tem lutado contra a degradação urbana e o abandono de propriedade desde que atividades manufatureiras (e as pessoas que as exerciam) começaram a partir décadas atrás. Moradores da cidade, que são principalmente afro-americanos, foram desproporcionalmente afetados pela crise imobiliária. E cerca de 40% das crianças em idade de jardim de infância de Cleveland testaram positivo para o envenenamento por chumbo em algum momento de suas curtas vidas.

Todos esses fatores parecem estar prejudicando os moradores mais jovens de Cleveland. Em seu estudo, os pesquisadores da Case Western analisaram os níveis de alfabetização das 13.762 crianças que entraram no jardim de infância de escolas públicas de Cleveland entre 2007 e 2010. Em seguida, com base em registros públicos, compararam os níveis de alfabetização com vários índices referentes aos lares em que essas crianças cresceram – incluindo avaliações sobre a qualidade da moradia, valores da propriedade e taxas de despejo e vacância. Eles também levaram em consideração impostos sobre propriedade não pagos e outros aspectos que são muitas vezes indicativos de que um lar está degringolando.

Uma das descobertas mais importantes com que os pesquisadores se depararam foi que a quantidade de tempo em que uma criança passou em moradias que estavam inadimplentes, em vias de despejo ou em posse de um especulador teve efeitos significativos sobre quão pronta esta criança estava para o jardim de infância. As crianças que se saíram pior foram aquelas que haviam passado a maior parte do tempo em casas e bairros abandonadas e, talvez de forma relacionada, testaram também positivo para envenenamento por chumbo. Os pesquisadores estimaram que a pontuação dessas crianças era 15% mais baixa em testes de alfabetização do que aquelas que viviam em melhores condições. Más condições de habitação também foram relacionadas a maiores taxas de abuso infantil e instabilidade familiar, o que também prejudica o desempenho no jardim de infância. Um fator que parecia não ter correlação com os resultados de uma criança do jardim de infância era estar vivendo em uma casa com baixo valor de mercado.

Rob Fischer, um dos autores do estudo, diz que interpreta sua pesquisa como uma evidência de que a política pública deve se concentrar em mais do que apenas acabar com a falta de habitação em áreas urbanas como Cleveland. “A discussão também precisa abarcar colocar as pessoas em melhores condições de moradia, em vez de apenas ficar satisfeito com o fato de elas terem um endereço”, diz Fischer, que é o co-diretor do Centro de Pobreza Urbana e Desenvolvimento Comunitário de Case Western’s “É preciso haver muito mais a respeito da qualidade da moradia e então subir um nível em direção a melhores oportunidades de moradia.”

Um dos pontos fortes do relatório foi o escopo de sua amostragem: ele rastreou todas as crianças que entram no jardim de infância em escolas públicas da cidade. Além disso, trabalhando dentro dos limites de registros públicos, os pesquisadores foram capazes de, em muitos casos, analisar as condições de vida em vários endereços e se as famílias dar crianças tinham se mudado. Há algumas limitações ao estudo também. Ele se baseou, por exemplo, em um teste de jardim de infância que mede apenas as competências de alfabetização; agora, o estado de Ohio substituiu este teste por uma avaliação mais completa da alfabetização de uma criança e de seu desenvolvimento social e emocional. Além disso, os pesquisadores não possuíam dados sobre crianças matriculadas em escolas particulares ou privadas da cidade. “Se tivéssemos a pontuação das crianças dessas escolas, poderíamos melhor avaliar o impacto que melhores condições de habitação têm sobre o desempenho dos estudantes”, diz Fischer.

Outra limitação ao estudo é que também há muito pouca diversidade entre os bairros de Cleveland e os alunos das escolas públicas. Cerca de 69% das crianças que entraram na rede pública de ensino eram afro-americanas, e mais de três quartos vieram de famílias de baixa renda. A maioria das casas na cidade foi construída antes de 1978, quando o governo federal proibiu o uso de tinta à base chumbo. Cerca de um terço vive em casas de valor inferior a US$30.000.

O mais fácil que as cidades poderiam fazer para melhorar a vida dessas crianças é limitar a sua exposição a casas com tinta à base de chumbo, diz Fischer. Os cientistas têm repetidamente demonstrado o dano que o envenenamento por chumbo traz para o desenvolvimento do cérebro de uma criança. A combinação de envenenamento por chumbo e más condições de habitação pode dar a uma criança uma séria desvantagem na vida. “Combinados, ver seus efeitos é devastador”, diz ele.

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